Heitor Dhalia, matador de aluguel em Hollywood

Por motivos diversos, a entrevista abaixo não encontrou espaço em nenhum dos veículos para os quais colaboro. No entanto, deixar as palavras de Heitor Dhalia – o talentoso diretor de “Nina” (2004), “O Cheiro do Ralo” (2006) e“À Deriva” (2009), entre outros – restritas à gaveta seria no minimo injusto.

Nascido em Recife e radicado em São Paulo desde o início da década de 1990, Dhalia conseguiu o que muitos cineastas brasileiros almejam: rodar uma fita na mítica Hollywood. Seu “12 Horas”, produção modesta para os padrões norte-americanos (custou cerca de U$15 milhões) estreou no Brasil na última sexta-feira (13). O diretor, que sempre tenta imprimir uma marca autoral em seus trabalhos, teve de lidar com inúmeras restrições criativas. O resultado, contudo surpreende: ainda é acima da média.

Hollywood desmistificada, Dhalia retorna ao Brasil para filmar outra história envolta em lendas e obscurantismo, que aguarda ser revelada: o boom da mineração na Serra Pelada (PA).

Bruno Machado – Como você chegou até “12 Horas”? Ou foi o roteiro que chegou a você?
Heitor Dhalia –
Tudo começou em 2004, quando apresentei “Nina” em Moscou e ganhei o prêmio da crítica. Isso gerou interesse em Los Angeles, e o filme ia ser exibido no festival de lá. O André Sturm me convidou para ir aos Estados Unidos com ele, para conseguir uma reapresentação. Na época eu só falava “yes” e “great”. Depois, voltei e comecei a fazer curso de inglês. Fazia aula seis vezes por semana, e isso foi fundamental para eu entender e compor melhor a dramaturgia em outra língua. Depois eu fiz “O Cheiro do Ralo” e consegui um manager nos Estados Unidos. Mesmo assim, o filme era muito indie, não emplacou. Foi só com “À Deriva”, que fez muito sucesso, que eu troquei de agente e consegui mais visibilidade. Recebi uns 10, 15 roteiros, e gostei muito de dois. Um deles era uma biografia do Francis Scott Fitzgerald, “The Beauty and the Damned”. Não foi para frente pois era muito dramático, e drama é quase um palavrão, um nome feio em Hollywood. Finalmente, depois de seis anos trabalhando por lá, eu estava muito desanimado. Foi no final de 2010 que me ofereceram o roteiro de “12 Horas” e eu aceitei.

BM – Você sofreu algum tipo de preconceito por não falar inglês, por ser brasileiro ou latino-americano?
HD –
Não senti preconceito da parte de ninguém, e mesmo que eu sofresse, eu não ia aceitar. Eu ia me impor. No começo, minha agente dizia que entendiam apenas 30% do que eu falava em inglês. Balançavam a cabeça, mas não entendiam quase nada. Esse é um problema comum entre as pessoas, e o cinema adora. É um momento meio “Lost in Translation” (risos).

BM – Me parece que depositavam confiança em você…
HD – Não sei te dizer, mas acho que sim. O ambiente em Hollywood, para mim, é muito especulativo, de intenções pouco verdadeiras. Tem muito papo furado, muito talk. A TV americana está bem melhor que o cinema, porque e um modelo de negócio com risco muito menor. Você sabe, cinema é um negócio muito arriscado.

BM – Então a experiência não foi positiva?
HD – Acho que o mais importante é que desmistifiquei Hollywood. É uma mística criada pela própria indústria, pelo Oscar. De 200 filmes produzidos por ano em Los Angeles, apenas 10 ou 20 são bons.

BM – Quais foram as dificuldades que você enfrentou enquanto fazia “12 Horas”?
HD – As principais dificuldades eram todas relacionadas a controlar o espaço criativo. Lembro que um produtor falou para mim: “o dinheiro é meu, então o filme também é”. Hollywood é o único lugar em que o financiamento e a autoria do filme caminham juntos. O autor não é o dono do filme, o autor não cria nada. Às vezes eu me sentia como um matador de aluguel em Hollywood. Eu não pude opinar sobre o corte final e sequer tive participação na escolha do elenco. A única escolha que tive foi fazer o filme ou não, e não sabia que isso implicaria em não poder escolher mais nada. Para mim isso é muito difícil, pois me considero um autor. Eu não esperava ser tão controlado.

BM – Mas imagino que também exista algo de positivo em filmar em Hollywood, ou não?
HD – Sem dúvida, existe. O lado bom de filmar em Hollywood é o profissionalismo e a capacidade financeira que jamais vão existir no Brasil.

BM – Mesmo com essas capacidades, é uma indústria que está sofrendo com uma crise financeira e criativa sem precedentes. O que você pensa disso?
HD –
Acho que isso está acontecendo pois o público de cinema mudou. Há uma perda muito grande e geral do público. O cinema tem de competir com o videogame, com a internet e principalmente com as redes sociais. Eu lembro que fui ao cinema e fiquei irritado com um adolescente do meu lado, que ficou atualizando o Facebook durante o filme todo. O perfil de quem consome cinema é alguém jovem, mas muito seletivo e criterioso. Ele paga o ingresso do filme que sabe que vai gostar. Hoje as pessoas têm pouca paciência e pouco tempo a perder com cinema. Daí a produção mais experimental e autoral estar diminuindo. E isso está acontecendo em toda parte, é uma tendência global.

BM – Mesmo com todas as restrições criativas que você citou anteriormente, eu imagino que você se orgulhe de ter dirigido “12 Horas”.
HD –
Eu tenho plena consciência que entreguei um filme muito bom, embora eu não tivesse controle do roteiro ou do elenco. É um filme de gênero, sem grandes pretensões artísticas, feito para um público jovem. Dentro do gênero dele, eu considero um filme muito bom É um filme standard, como eles chamam por lá.

BM – Você pretende filmar em Hollywood novamente?
HD –
Se for para sofrer o mesmo controle e a mesma pressão novamente, eu acho que não. Eu abandonei um projeto maravilhoso chamado “Beyond the Tale”, que era uma comédia meio western, com humor negro. Voltei para cá, para filmar “Serra Pelada”. A estreia está prometida para 2013 e vai ser protagonizado por Wagner Moura e Seu Jorge.

BM – E esse será um filme autoral?
HD – Não, pois é um filme grande, comercial e de apelo popular. Mas eu mantive o controle criativo. Eu escrevi, produzi e vou dirigir “Serra Pelada”. É importante aceitar desafios. Essa história de glamour é uma piada. Pra fazer cinema é preciso se manter vivo e ativo. Fazer cinema é uma guerra.

O trailer de “12 Horas” está aqui.

“O Artista”: entre a metalinguagem e a ortodoxia

Valentin e Miller: esforço dramático para segurar a narrativa

Minutos antes de ser exibido em Cannes, “O Artista” (The Artist, França/Bélgica, 2011) não chamou a atenção dos críticos. A informação de que iriam assistir a uma projeção de mais de uma hora e meia sem cores ou sons fez com que torcessem o nariz. No entanto, dez minutos de projeção foram o suficiente para que os semblantes desanuviassem: o filme cativara sua audiência. O protagonista, Jean Dujardin, deixou o festival com a cobiçada Palma de Ouro em mãos.

O filme que conquistou Cannes e colecionou outros prêmios ao redor do mundo segue cotado como o vencedor do Oscar de Melhor Filme. O parco orçamento, de pouco mais de 15 milhões de dólares, condiz com declarações recentes do diretor Michel Hazanavicius de que queria fazer um filme modesto. O resultado final, no entanto, não pode ser considerado despretensioso, uma vez que “O Artista” busca, mais que narrar uma história, homenagear a sétima arte emulando a linguagem que a consagrou em seus primórdios. Vinda de um diretor de fora de Hollywood, e de origem francesa, a empreitada soa ainda mais ousada.

Hazanavicius parte de uma premissa simples e não inédita em Hollywood: narrar os primeiros passos do cinema através da ascenção e ruína de um ator. O artista do título é George Valentin (Jean Dujardin, que espera-se, levará o Oscar pela performance), um astro do cinema mudo, mergulhado no ostracismo com a chegada dos filmes falados e que assistirá, impotente, a decolagem de Peppy Miller (Berénice Bejo) rumo ao estrelato.

Cabe aqui aqui lembrar Marilyn Monroe – devidamente homenageada por Peppy e sua pintinha sobre os lábios –, para quem, aos olhos dos cineastas, os atores eram como máquinas de fazer dinheiro. Embora Hazanavicius seja reverente ao cinema norte-americano, ainda sobra espaço no seu filme para criticar as relações de trabalho e o modelo industrial que se criou com Hollywood: com a chegada do cinema falado, Valentin é aposentado, como uma máquina ultrapassada. O público não quer mais o ator gesticulando e fazendo caretas para a câmera, ele quer som.

Mais do que reconstruir a época – o filme registra a Grande Depressão de 1929 e chega a meados dos anos 30, quando o cinema começa a delinear sua linguagem –, Hazanavicius é rigoroso ao reproduzir a estética cinematográfica da época. Segue a risca os ensinamentos de Chaplin, Orson Welles, Sergei Eisenstein e consegue fechar sua fita com uma bela homenagem à filmografia de Fred Astaire. Em muito, “O Artista” também recorda “Cantando na Chuva” (1952).

A ortodoxia é o grande trunfo, mas também o grande vício de Hazanavicius. Comedido e preso a poucos recursos cinematográficos, o diretor apresenta um roteiro frágil, pontuado de soluções fáceis, como a inserção de humor nas cenas mais densas ou dramáticas. Tire a bela direção de arte e as cartelas que pautam os diálogos entre os personagens e o melodrama torna-se insosso – até mesmo para um filme da década de 20. É na homenagen que o filme ganha vulto, pois explora a metalinguagem e brinca com o imaginário cinematográfico, evocando o repertório do espectador e todos os recursos do cinema que, de alguma forma, contribuíram para criar novas formas de expressão, desde sua criação. O cinema parece emular o pensamento, mas sua difusão, como forma de arte mais popular no mundo, também fez com que muito influenciasse a forma com que os pensamentos são formulados.

Irremediavelmente, o engessado conflito entre George e Peppy, bem como o seu óbvio desfecho, ficam em segundo plano. Mais do que isso, não justificam, à revelia do belo esforço dramatúrgico, uma hora e quarenta de projeção. No entanto, ´para quem espera um filme sonolento, “O Artista” surpreende pelo ritmo – sobretudo devido a trilha de Ludovic Bource (também merecidamente indicada ao Oscar), que mais que sublinhar o que acontece na tela, cria climas e confere agilidade à narrativa.

Ainda é cedo para dizer que “O Artista” levará o Oscar no dia 26. Se o fizer, realizará um feito histórico. A aposta ainda é arriscada, pois “A Invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese, sugere uma árdua disputa voto a voto. Entre a homenagem ao cinema vinda da França e a produzida em casa, a Academia pode optar por aquilo que lhes parece mais famíliar, e sobretudo, natural.

Teias, engrenagens e labirintos: a política e as relações sociais no iraniano “A Separação”

Cena final de “A Separação”: uma metáfora sobre o futuro do Irã?

É difícil escrever sobre “A Separação” (Jodaeiye Nader az Simin, Irã, 2011). Poucos filmes são como este, capazes de me fazer deixar o cinema em silêncio após sua exibição. Dos mais recentes, apenas “A Árvore da Vida”, de Mallick, ou “Melancolia” de Von Trier, ou “A Pele que Habito” de Almodóvar me causaram efeito semelhante.

Todos eles, penso eu, são mais do que uma experiência cinematográfica tradicional, em que o espectador se senta defronte uma tela para ver e ouvir uma história. Filmes como estes propõem verdadeiras experiências sensoriais que ignoram as convenções narrativas. É como se convidassem ao espectador preencher uma lacuna. Como se apelassem ao espectador para que ele não apenas se acomode passivamente na poltrona, mas que também se doe. Que contribua com seus valores, com o repertório de suas emoções e imagens pessoais. Por assim dizer, enfim, filmes quase colaborativos, cuja força reside exatamente em sua fraqueza, sua incompletude. Filmes, no entanto, fortes o suficiente para nos sugar para dentro deles, como turbilhões, e ao final da projeção, nos deixar uma marca indelével.

Difícil, árido, “A Separação” coleciona prêmios. Berlim, Nova York, Londres, e muito provavelmente, Los Angeles. Se indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro, na próxima terça, 24, sua vitória é dada como certa. Não apenas pela qualidade técnica acima da média, mas pela sua pertinência. Filme sobre relações sociais – e não humanas, ao meu ver, como alguns já escreveram – mas sobretudo, político.

Ao final das duas horas de projeção, a impressão que se tem é a de que a manutenção da vida e a relação com os demais em sociedade pode ser reduzida a um punhado de ações políticas que reafirmam não a existência de um grupo, numa democracia, mas a do indivíduo isolado e oprimido por um regime totalitário: em “A Separação” há um borrão que impossibilita precisar a delimitação entre os interesses egoístas e os solidários.

Do topo das ruínas daquilo que já foram as relações familiares, pode-se avistar os destroços de um país que naufragou com seu povo. Em contrapartida, essa nação sufocada e ofegante vê surgir no horizonte algumas figuras hesitantes, portadoras de futuro: obviamente são mulheres.

Mulheres que, na fita de Farhadi, são como demônios. Mas que por se tratar de um cinema autenticamente realista, não são maniqueístas, diametralmente opostos ao homens como, por exemplo, no também recente “A Fonte das Mulheres”. Aqui, as personagens femininas podem ser demonizadas apenas pelo espectador, mas jamais pela câmera – elas são apenas a força motriz da narrativa, enquanto o roteiro desempenha sistematicamente seu papel cinematográfico: mostra e esconde, como um mecanismo de relógio.

O mesmo pode ser estendido a outros aspectos narrativos do filme: a todo momento o espectador é convocado a adotar posições sobre temas como casamento, religião, moral e justiça. É como se Farhadi conclamasse o público a fazer parte da narrativa, da mesma maneira que o chamasse a se engajar na causa iraniana.

Em formato de funil, “A Separação” disseca um país que se encontra numa encruzilhada histórica: ou abraça para sempre seus dogmas religiosos e políticos fundadores, ou procura respostas para perguntas que o Ocidente e a modernidade lhe trouxeram. A cena final do filme propõe exatamente tal reflexão, mas humildemente, não procura respondê-la.

Como haveria, então, de um filme como esse ser universal? Sagaz, Farhadi consegue moldar o indigesto conteúdo político numa forma palatável e acessível, porém não didática. Consegue provar, por fim, que as relações sociais são fruto de uma situação política arbitrária – e vice-versa.

“A Separação”, enfim, pode ser definido como um conjunto de mensagens que de tão óbvias, são quase invisíveis. Mensagens que permeiam temas não apenas concernentes à conturbada situação político-social iraniana, engessada por um regime totalitário. Afinal, política, amor, religião, moral e algo de nós mesmos – identidade, na falta de palavra melhor – fazem parte de todos nós. A olho nu, tais aspectos parecem fundidos numa massa densa. Em duas horas de projeção, “A Separação” parece permitir ao espectador um olhar radiográfico sobre as divisas de tais aspectos, suas teias, engrenagens e labirintos.

O trailer do filme está aqui

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